Arquivo mensal: setembro 2011

Debate movimenta a reabertura do Cine Cultura

(Foto: Pedro Fonseca)

Após longa e aguardada espera o Cine Cultura reabriu as portas, na última sexta-feira (23), para a estréia de Pacific do cineasta pernambucano Marcelo Pedroso, um dos sete filmes integrantes da Sessão Vitrine, projeto que distribui filmes nacionais independentes e sem distribuição no mercado brasileiro. Foi gratificante ver a mobilização da sociedade goianiense que lotou a sala para assistir ao filme e participar do debate com o diretor após a sessão.

O debate mediado pela diretora do Cine Cultura, Marcela Borela, rendeu excelente discussão sobre questões importantes levantadas pelo filme como representação da classe-média no cinema nacional, imagem e dispositivos digitais, ética, autorismo, documentário e montagem, ampliando a discussão do filme e promovendo uma reflexão mais aprofundada acerca dos caminhos que o cinema pode tomar. O público, interessado nas questões propostas pelo filme de Marcelo Pedroso participou ativamente do debate com perguntas e opiniões pertinentes, o que revela o interesse e preocupação desse público  com as questões seminais que permeiam o cinema feito no Brasil nos últimos anos.

E a Sessão Vitrine continua movimentando o Cine Cultura pelas próximas seis semanas. Agora com o filme A Fuga da Mulher Gorila de Marina Meliande e Felipe Bragança que estréia nesta sexta-feira (30). Na semana seguinte outro debate irá chacoalhar a programação do cinema em Goiânia, com a estréia do longa-metragem Crítico de Kléber Mendonça Filho, um dos mais importantes curtametragistas e críticos do país. O debate contará ainda com a presença da diretora da Vitrine Filmes, Sílvia Cruz, que enriquecerá ainda mais a discussão sobre cinema e crítica suscitada pelo filme. Mais um motivo para lotar a mais tradicional sala de cinema de Goiânia, o nosso querido Cine Cultura.

A Fuga da Mulher Gorila

82′ / Brasil / 2009 / Português / Ficção

A Fuga da Mulher Gorila homenageia (porque absorve e retrabalha) os espetáculos circenses das cidades interiorianas e as velhas marchinhas de carnaval das chanchadas da Atlântida. Musical, o filme é rivettiano: como Paris no Verão, a irrupção brusca das canções rompe com a lógica narrativa pautada pelo naturalismo visual e catapulta ao ambiente os sentimentos retesados das personagens. Flora mantém o olhar inocente, enquanto sua irmã é apenas raiva e saudade: ela abandonou o marido e o filho recém-nascido, largou tudo, fugiu.

DIRETOR: Felipe Bragança e Marina Meliande

SINOPSE: A Fuga da Mulher Gorila. As duas irmãs pegam a estrada de kombi, recolhem ator que deseja conhecer o Rio de Janeiro, organizam show mambembe no qual se transformam em gorila e ameaçam a platéia – o oceano, símbolo do infinito, motiva-as a se lançarem na busca, a desbravarem o caminho, mesmo que ele seja inalcançável. O filme de Felipe Bragança e Marina Meliande pulsa sobre o tênue limite entre a aventura e a melancolia, em virtude da impossibilidade de se concluir a jornada.

 

Em cartaz no Cine Cultura: 30 de setembro a 4 de outubro

Pacific

72′ / Brasil / 2009 / Português / Documentário

Uma viagem de sonho em um cruzeiro rumo a Fernando de Noronha. As lentes dos passageiros captam tudo a todo instante. E eles se divertem, brincam, vão a noitadas. Desfrutam de seu ideal de conforto e bem-estar. E, a cada dia, aproximam-se mais do tão sonhado paraíso tropical…

DIRETOR Marcelo Pedroso

SINOPSE O documentário Pacific é todo construído a partir de imagens de passageiros de um cruzeiro que tem como destino uma das mais belas paisagens brasileiras, o arquipélago de Fernando de Noronha. São sete dias de viagem registrados pelas lentes de turistas que filmam tudo, a todo instante. Ao lançar seu olhar sobre o olhar dos personagens, o filme se revela um ensaio sobre a produção de imagens na contemporaneidade e suas implicações políticas, além de lançar luz para uma reflexão sobre a sociedade brasileira, a partir de um grupo social pouco visto e longe dos estereótipos comumente observados em documentários.

PRÊMIOS
9ª Mostra do Filme Livre (Melhor filme – Prêmio caríssima liberdade)
4ª Panorama Coisa de Cinema de Salvador (Melhor filme – Júri oficial e Júri Jovem)
3ª Mostra de Cinema de Triunfo (Melhor produção)
1ª CachoeiraDoc (BA) (Melhor filme)
13ª CineEsquemaNovo (Melhor longa-metragem)

FESTIVAIS
29ª Bienal de São Paulo
2ª Janela Internacional de Cinema do Recife
13ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG)
9ª Mostra do Filme Livre
1ª Mostra Cineastas e Imagens do Povo (RJ, SP, DF)
2ª Semana dos Realizadores (RJ)
11ª Indie – Mostra de Cinema Mundial (MG)
4ª Panorama Coisa de Cinema de Salvador
3ª Mostra de Cinema de Triunfo
5ª Mostra Paulista de Cinema Nordestino
1ª CachoeiraDoc (BA)
4ª Mostra de cinema de Londrina
13ª CineEsquemaNovo

 

Em cartaz no Cine Cultura: 23 a 27 de setembro

Nova distribuidora incentiva reabertura do Cine Cultura

(FOTO: Fábio Lima)

Aline Mil

Um documentário relatando um cruzeiro marítimo que, durante sete dias, percorre o trecho entre a capital pernambucana, Recife, e as deslumbrantes ilhas de Fernando de Noronha. Retrato de uma viagem dos sonhos no litoral nordestino? Sim. Mas enganam-se os leitores que, de imediato, imaginaram um filme com tomadas panorâmicas de paisagens paradisíacas, entrevistas com passageiros e narração em off. Pacific, longa produzido pelo cineasta Marcelo Pedroso, foi feito a partir da montagem de cenas e áudio captados pelos próprios passageiros a bordo de um navio, no final de 2008. Com câmeras digitais compactas em punho, os turistas de classe média registraram em vídeo cada momento do passeio. E é esse reflexivo documentário pernambucano que protagoniza a reabertura do Cine Cultura, nesta sexta-feira (23/9), às 19h30.

Temporário
Fechado há cerca de cinco meses, o cinema passa por processo licitatório para reformas na sala de projeção e também reorganização do quadro de funcionários. Segundo Marcela Borela, diretora do Cine, a reabertura durará apenas sete semanas, tempo de exibição da atual cartela de filmes da distribuidora Sessão Vitrine, da qual Pacific faz parte. A diretora relata que as reformas no cinema são simples e se resumem à troca do revestimento da sala de exibição, que hoje é carpetada; à digitalização do som; atualização do equipamento de projeção digital e também à nomeação de novos funcionários. Hoje, o Cine Cultura conta, por exemplo, com apenas um projecionista, o que impede o funcionamento pleno do cinema.

Jornalista, historiadora e cineasta, Marcela está contente com a oportunidade de reabrir as portas do Cine Cultura e firmar uma nova parceria, ainda que não haja prazo para a definitiva reinauguração do espaço. Na diretoria do Cine Cultura desde abril, assumindo o cargo exatos cinco dias após o fechamento do cinema, a diretora deixa claro que o foco principal de sua gestão nesses primeiros cinco meses tem sido pesquisar e contactar novas distribuidoras. “A Sessão Vitrine é uma distribuidora nova, fundada este ano e que reúne o que há de mais novo no cinema brasileiro em circulação, com foco no cinema de invenção, na atualização da linguagem”, explica. Todos os realizadores da cartela de filmes em cartaz a partir desta sexta-feira têm entre 25 e 30 anos. “É um cinema novo e ainda desconhecido pela maioria do público”, reafirma Borela.

Debate
Desde Agosto, Pacific está sendo exibido em várias cidades do País.  Ao todo, o documentário já carrega no currículo 5 prêmios e 13 participações em festivais e já foi exibido em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e também em Brasília. Ao lançar seu olhar sobre o olhar dos personagens e ressignificar as cenas, Pacific revela um ensaio sobre as implicações políticas da fácil produção imagética na contemporaneidade. Longe dos estereótipos normalmente observados em documentários, o filme propõe uma reflexão sobre a própria sociedade brasileira.

Para Marcela, Pacific surge de um contexto afetivo, a partir de cenas emocionais, e segue para outro campo, muito crítico, ácido e ousado. “Pacific é um filme inquietante, que se coloca no centro do debate do documentário contemporâneo. Para mim, é um filme polêmico, bom de ser debatido”, pontua ela. O cineasta pernambucano Marcelo Pedroso estará no local durante a exibição do longa para uma conversa com o público, incentivando a reflexão. “O Cine Cultura é um espaço de avivamento do pensamento cinematográfico em Goiás. Aqui a ideia não é apenas exibir os filmes, mas ampliar e reflexão, formar novos públicos”, finaliza a diretora.

As sessões da Vitrine serão realizadas nas sextas, segundas e terças-feiras, às 18h30 e 20h30 (com exceção da sessão especial desta sexta-feira, que será realizada às 19h30) e, aos sábados e domingos, às 17h30 e 19h30. Os preços continuam acessíveis, sendo R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia entrada).

Serviço
Reabertura Cine Cultura
Exibição: Pacific / Brasil / 2009 / Português / Documentário/ 72′
Debate com presença do diretor Marcelo Pedroso
Sexta-feira (23/9), às 19h30.
Ingressos: R$6 (inteira) e R$3 (meia)

 

Texto publicado em A Redação

Pacific, de Marcelo Pedroso

Passageiros da alegria

por Fabrício Cordeiro


Há algo de muito triste neste registro de alegrias que é Pacific, documentário de Marcelo Pedroso que estréia em Goiânia na próxima sexta-feira, 23 de setembro, na sofrida reabertura do Cine Cultura. O filme inicia a programação da Sessão Vitrine na cidade, onde serão exibidos sete longas brasileiros, cada um em cartaz por uma semana. Todo longa é antecedido por um curta-metragem.

Um dos fundadores da Símio Filmes, fértil veia pernambucana do nosso cinema, Pedroso parece ter realizado aqui uma espécie de documentário surpresa, montagem do que se imagina ter sido uma grande coleta de filmagens feitas por passageiros de um cruzeiro nacional, o Pacific, com destino à Fernando de Noronha. Logo no começo, há informação de que a equipe de produção só entrou em contato com as pessoas após o fim do trajeto, com um cinema que se consolida desde o princípio na escolha e ordem das imagens, deixando aquela impressão de que é mesmo com cortes e recortes que se faz, enfim, um filme, e não apenas uma gravação de férias.

Na sua primeira imagem, o Pacific – grande demais, talvez espetacular demais, tudo demais – parece não caber nos sonhos enquadrados pelo cinegrafista amador. O nome inglês do navio é pronunciado com sotaque pernambucano pelo auto-falante da van/ônibus, momento que acaba se assemelhando, em essência, a muitas das atrações oferecidas por esse barcão recreativo. Entre outras coisas, o pacote inclui versões scanneadas de Broadway (O Fantasma da Ópera), Hollywood (Frank Sinatra) e do próprio Brasil (Garota de Ipanema, com direito a uma noção geral e imaginada de praia), cenário de fotocopiação cultural capaz de lembrar o parque de réplicas de O Mundo, do chinês Jia Zhang-ke . Vez ou outra os passageiros também emulam algo do tipo, como o casal que vê no Pacific a sua chance de Titanic, ou no pianista sem notas, “personagem” que Pedroso seleciona com algum traço de melancolia.

De mesma importância, o material das filmadoras revela aquele nosso interesse pela nossa própria imagem. A câmera em si mesmo ou dirigida ao espelho traz os rostos e corpos desses passageiros, pois “se não aparece, não adianta”. É provável que o espectador saia de Pacific sem lembrar o nome das pessoas, mas é difícil esquecer suas imagens, o que fazem delas e o que são feitas por elas, suas próprias filmagens. Aos poucos, essas câmeras soltas pelo cruzeiro acabam por apresentar um mix de hotel, clube e casa de shows rodeado de água por todos os lados, sugerindo aqui um estranho reality show (uma semana “sem contato algum com o mundo lá fora”, fala que surge numa cena com três controles remotos). Após anunciada a máquina de chopp, o zoom da câmera mira a marca da empresa, talvez por instinto.

A passagem por Fernando de Noronha, ilha de fato, é breve. A festa de Réveillon aguarda com as conhecidas promessas cantadas. Promessas festivamente solidificadas em fogos de artifício, que então podem se desmanchar no ar.

Cine Cultura é reaberto no dia 23 de setembro

O Cine Cultura será reaberto nesta sexta-feira, 23 de setembro, com o projeto denominado Sessão Vitrine, em sua 2a edição. Durante 7 semanas serão exibidos 7 longas-metragens brasileiros, entre documentários e ficções. No dia da reabertura, 23, estréia o documentário “Pacific” do pernambucano Marcelo Pedroso. A sessão ocorrerá especialmente as 19h30 para que haja mais tempo para aproveitar o debate com o diretor, que estará em Goiânia para um bate-papo com o público do Cine Cultura após a sessão do filme.

Durante a Sessão Vitrine no Cine Cultura, haverá um longa brasileiro na tela toda semana, sempre antecedido de um curta. As sessões podem ser acompanhadas pelo público em geral de sexta à terça-feira. As sextas, segundas e terças, as 18h30 e 20h30, e aos sábados e domingos, as 17h30 e as19h30. Os preços continuam os mais acessíveis da cidade, R$ 6,00 entrada inteira e R$ 3,00 reais meia entrada.

Celebra-se ao longo destas 7 semanas tanto a reabertura do Cine Cultura quanto a parceria do cinema com a Vitrine Filmes, uma distribuidora que surge nesse anode 2011 com um projeto pioneiro de circulação de filmes nacionais independentes, levando para as principais capitais do país, simultâneamente e em bloco, filmes inéditos, que se destacaram nos principais festivais.