La Vida Útil: filme em perfeita sintonia com a reabertura do Cine Cultura

la vida util

Fabrício Cordeiro

Após meses fechado para reformas, o Cine Cultura volta às suas atividades nesta sexta-feira, 07 de dezembro. Localizado na Praça Cívica, o cinema conhecido como “o mais charmoso de Goiânia” não poderia ter escolhido melhor reabertura: La Vida Útil – Um Conto de Cinema (2010), de Federico Veiroj, cineasta uruguaio. Com 70 minutos de duração, o longa será exibido na sessão de 18h30 de segunda à sexta e na sessão de 17h aos sábados e domingos.

Como é sabido, salas de rua tornaram-se espécies em extinção, sobretudo a partir da virada dos anos 70 para os anos 80, quando Hollywood entendeu que shopping centers eram um excelente lugar para os negócios, e que Tubarão e Star Wars apontavam um modelo a ser seguido. A cinefilia teve de se adaptar, o público mudou. Aos poucos, as pessoas deixaram de ir ao cinema e adquiriram um hábito mais… sedutor(?): consumir o cinema, e em um local onde poderiam consumir muitas outras coisas.

Soma-se a isso o fato do cinema também desprender-se da sala de exibição, da tela grande, encontrando seu novo lugar nas fitas VHS, nos DVDs, nas TVs por assinatura e, hoje, nos arquivos virtuais, na imaterialidade da “nuvem”. O olhar coletivo encontrou um amigo rival: o ver doméstico.

O filme de Veiroj fala justamente de um cinema pouco sobrevivente, de exibições alternativas e autorais,   como ciclo de filmes uruguaios e Mostra Manoel de Oliveira. É a Cinemateca de Montevidéu, mas poderia ser qualquer cinema de rua da América Latina.

Acompanhamos Jorge (Jorge Jellinek), funcionário da Cinemateca da capital uruguaia por mais de 20 anos. É sua rotina de trabalho que lembrará o espectador o quanto há de ofícios comuns e burocráticos por trás do prazer de assistir a um filme, além dos inúmeros esforços para que esse tipo de cinema seja mantido vivo. São salas atordoadas por problemas técnicos e flanqueadas por dependências administrativas, sendo o “economicamente não rentável” um motivo para cordas no pescoço.

Numa cena de discurso mais explítico, outro personagem explica a importância destas salas não apenas como exibidoras, mas como espaços de aprendizado e formação de espectadores. A política de público das cinematecas, tão importante nas décadas de 1950 e 1960, ficou para trás assim como o nostálgico preto-e-branco de La Vida Útil virou sinônimo de passado.

Os últimos suspiros do lugar parecem estar no som das cortinas se abrindo, no barulho do rolo de filme no projetor e no movimento das portas, tão sozinhas quanto Jorge, detalhes e instantes que Veiroj filma com afetuoso interesse, revelando paixão e lamento. Não por acaso, mesmo distante de sua Cinemateca, Jorge parece procurar pequenos momentos cinematográficos para sua vida, com uma cena nas escadas de uma universidade sendo das mais bonitas e encantadoras.

É um filme com um forte clima de solidão e abandono. Não exatamente de pessoas (de alguma forma, elas estão salvas, surpreendentemente!), mas a solidão de um tipo de cinema e, não muito atrás, de um tipo de prazer.

Assistir a La Vida Útil num cinema como o Cine Cultura é, em certa medida, ser o filme. Ou, na mais feliz das hipóteses, declarar que sua atmosfera cinefilamente fúnebre (mas doce e, por fim, esperançosa) ainda pode se enganar.

Publicado originalmente no portal A Redação.

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Sobre Cine Cultura

O Cine Cultura é o espaço de referência em Goiânia quando o assunto é o CINEMA. Inaugurada no dia 15 de julho de 1989, a pequena sala batizada de Sala Eduardo Benfica, com 98 lugares, apesar de pequena, abriu as portas para uma história de cinema que tem sido escrita com grande força em seus anos de existência. Dirigido ao longo de grande parte de sua história por Antônio Segatti – importante diretor de fotografia de inúmeras produções cinematográficas em Goiás – o Cine Cultura se firmou como principal espaço de exibição de filmes não-comerciais, proporcionando ao público experiências que os cinemas ditos “comerciais” não se interessavam em promover. Hoje, com 89 lugares (sendo um espaço para cadeirante), o Cine Cultura acompanha um momento decisivo de transição pelo qual passa o cinema mundial no século XXI. A tradicional projeção em 35mm que acompanhou toda a história do nosso cinema vem agora aliada à tecnologia digital, proporcionando uma maior democratização de acesso a uma quantidade inimagináveis de filmes disponíveis no circuito exibidor brasileiro e mundial. Como cinema que privilegia o que de melhor se produz no cinema contemporâneo, o Cine Cultura se coloca como o principal espaço de difusão de filmes de Goiás, exibindo lançamentos importantes do circuito comercial, sem nunca deixar de promover festivais e mostras especiais, buscando oferecer para o público goianiense, uma programação ampla e democrática, transformando o nosso cinema num espaço de convivência, reflexão e debate aberto a toda a sociedade. Buscar uma relação mais próxima e afetiva com o público é o principal projeto do Cine Cultura. Estar em contato direto com as pessoas, ser um catalisador de experiências audiovisuais, de aproximação com a cultura e com a arte através do cinema, é o que motiva o Cine Cultura. A ideia é construir um intenso e fértil ambiente onde a paixão pelo cinema possa florescer, a partir do qual o cinema possa ser conhecido em sua totalidade, sem limitações. Assim o Cine Cultura pretende ser o lugar onde as pessoas, cada vez mais, possam enfim se render ao poder transformador da sétima arte.

Publicado em 7 de dezembro de 2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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